Os que ficaram
Luis Fernando Verissimo
O mais impressionante em Pompeia, a cidade sepultada pelas cinzas do Vesúvio no ano 79 depois de Cristo, são as estátuas dos mortos. Encheram de gesso os buracos deixados na cinza solidificada pelos cadáveres decompostos, e cada espaço moldou um corpo branco na posição em que estava na hora da sua morte. Sempre se pensou que a população de Pompeia tivesse sido surpreendida pela chuva de cinzas do Vesúvio e que a maioria morrera dormindo. Hoje se sabe que o Vesúvio entrou em erupção dias antes, tremores de terra e explosões anunciaram a catástrofe que viria, e a população de Pompeia já abandonara a cidade quando as cinzas mortais a cobriram, para ser desencavada séculos depois. Assim, as estátuas são de mortos excepcionais. De cépticos que duvidaram da catástrofe, de curiosos que queriam ver como seria, de aventureiros dispostos a desafiar a natureza, de suicidas, de distraídos... Enfim, dos que ficaram. Durante anos, todos os estudos e todas as teorias sobre Pompeia presumiram que os fantasmas conservados em gesso eram exemplos de habitantes comuns da cidade e do seu fim em comum, quando eram dos seus excêntricos, numa amostragem que incluía os mais científicos e os mais burros, mas não representava a imensa gama entre os dois extremos.
O que significa, exatamente, o quê? Sei lá. Apenas li a respeito e achei que havia uma metáfora aí, em algum lugar. O significado, cavando um pouco, talvez seja que no fim todas as sociedades são julgadas pelas suas exceções e seus extremos. E que a história e a sociologia estão sempre ameaçadas por dados incompletos, principalmente quando se tratam de dados sob cinzas. É conhecida a história daqueles arqueólogos que, depois de anos de trabalho, descobriram o que parecia ser restos de uma civilização antiga, um achado importantíssimo, até que no meio das ruínas surgiu um paliteiro do século vinte que destruía todas as suas teses e especulações. E se viram no seguinte dilema: desistir das escavações ou anunciar ao mundo seu sucesso, a descoberta de uma civilização até então desconhecida e a espantosa revelação de que a matéria plástica era muito mais antiga do que se supunha.
Mais Shakespeare
O objetivo de James I era fazer uma versão definitiva da Bíblia em inglês, com aprovação real, para substituir todas as outras traduções da época, principalmente as que mostravam uma certa simpatia republicana nas entrelinhas (como a Bíblia de Genebra, feita por calvinistas e adotada pelos puritanos ingleses e que é a única Bíblia ilustrada da história em que Adão e Eva vestem calções). Para isto, James reuniu um "time" dividido entre os que cuidariam do Velho e do Novo Testamento, das partes proféticas e das partes poéticas, etc. Especula-se que as traduções dos trechos poéticos teriam sido distribuídas entre os poetas praticantes da época, para as revisarem e, se fosse o caso, melhorarem, desde que não traíssem o original. Entre os poetas em atividade na Inglaterra de James I estava William Shakespeare. O que explicaria o fato de o nome de Shakespeare aparecer no Salmo 46 - "shake" é a 46.ª palavra do salmo a contar do começo, "speare" a 46.ª a contar do fim. Como a primeira edição da versão da Bíblia do rei James saiu em 1611, presume-se que Shakespeare teria trabalhado na revisão durante o ano de 1610 - quando estava com 46 anos. Na tarefa de revisor, e incerto sobre a sua permanência na história como sonetista ou dramaturgo, Shakespeare teria inserido seu nome clandestina e disfarçadamente numa obra que sem dúvida sobreviveria aos séculos.
Infelizmente, diz Anthony Burgess, em cujo livro A Mouthful of Air a encontrei, há pouca probabilidade de esta história ser verdadeira. De qualquer maneira, vale para ilustrar a tentação que tradutores e revisores devem sentir de deixar sua marca, como um grafite, na criação alheia.
Domingo, 6 de maio de 2007.
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